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O fusca do mano
OUT 01, 2001 Hoje realmente aconteceu algo inusitado.
O Pimon falou, sem saber a respeito do conteúdo deste breve capitulo.
É para ele, especialmente, que dedico esta modesta crônica.
Estávamos no ano de 1969, eu tinha me casado e meu primeiro filho
estava a caminho. Trabalhava no Edifício Itália, recém
inaugurado, onde era a sede do Banco de Investimento Crefisul, fundado
em Porto Alegre, e também há pouco em S.Paulo.
Foi nesse ano, como contei na crônica anterior, que a Bolsa de Valores,
experimentou em termos relativos, o seu maior crescimento.
A maioria das pessoas acompanhava o mercado e comprava ações,
como investimento, pois o mercado financeiro estava engatinhando, e não
havia tantos produtos para atender às necessidade dos poupadores.
A classe média "existia".
Sem exagero, foi a época em que me lembro, em que mais pessoas
investiam na Bolsa. O barbeiro onde cortava o cabelo, existe até
hoje, a cada corte, comentava suas aventuras bursáteis e trocava
informações, não somente comigo, mas com outros clientes.
Havia um local na Rua 7 de Abril, onde a maioria que trabalhava na região
acompanhava as cotações. Era o Escritório Levy, que
tinha um painel com o nome das principais empresas e cujas cotações
eram atualizadas a cada meia hora, pelo continuo, usando aquelas letras
e números plásticos de encaixar. O motorista de táxi
que nos atendia, também gostava de ações. Vendeu
o taxi velho, pôs na Bolsa e financiou um novinho.
Meu irmão, que já naquela época ia e vinha de Portugal
com muita freqüência, em julho desse ano, vendeu um carro da
marca Karmann Ghia do ano, e deixou o dinheiro aplicado em Banco do Brasil.
Suas instruções para o mano mais novo, eram de que, em hipótese
alguma, fossem vendidas, sob qualquer pretexto.Deveria eu, aguardar a
sua volta, e ai sim com o lucro auferido compraria um Mercedes.
Ordens são ordens.
Um belo dia, não sei quais as razões, pois era muito jovem,
o mercado começou a dar sinais de queda. Ficou uma imagem gravada
na retina, que vou levar para sempre.
O pregão terminava as 13, 00. Não havia pregão á
tarde, que era dedicada as tarefas administrativas e de contato com clientes.
Precisamente ás 12 horas, ouvi um barulhinho no vidro do aquário
do pregão, e vi a figura do sr. João Jabour, batendo com
seu grosso anel de ouro, chamando seu operador, e fazendo gestos característicos
de VENDA.
Esse Senhor era detentor de 3% do capital do Banco do Brasil, e nesse
dia a cotação atingiu 57, 00 ou cinqüenta e sete
cruzeiros.
Foi a maior cotação alcançada em dólares
de toda a historia do papel. Acredito que quem mantivesse o papel até
hoje, mesmo com dividendos e bonificações, não
teria sequer 1/3 desse valor.
Nesse dia, sem que tivéssemos percebido, começava o maior
crash da nossa Bolsa. Maior, pois carregou poupanças de centenas
de investidores, que não acreditavam no tamanho da baixa que
se sucedeu e não venderam suas ações, logo no inicio.
A situação foi tão dramática, que na época
foi implantado o Limite de Baixa. Circuit Breaker atual. Quando as cotações
atingissem 10% de baixa, os negócios eram interrompidos, no papel
e depois em todo o mercado quando o numero chegava ao índice
Bovespa.
Para se ter uma idéia, durante 4 ou 5 dias, o mercado já
abria em limite de baixa e só saiam negócios naquele preço.
O pregão durava 30 minutos e só. Os auxiliares de pregão
faziam fila desde a madrugada, para colocar as ordens de venda, pois
prevalecia a ordem cronológica de chegada.
Isso foi um pânico de verdade. Foi realmente o único pânico
generalizado que vi, atingindo tantas pessoas de diferentes profissões.
Terminando, quando o mano voltou de Portugal, comprou um fusca 59 com
a primeira escapando (...)
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